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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

 


7.          Foi uma boa mudança de vida?

Várias pessoas questionam se houve de facto evolução ao passarmos de nómadas a sedentários.

Na altura em que escrevo esta página (início de 2022) a população mundial está a caminho dos 8 mil milhões de habitantes (somos cerca de 7.8 mil milhões de pessoas).

Desses, aproximadamente 69% vive com menos de US-30$ por dia (tendo por base o nível de vida nos EUA).

Ou seja, ao dizer que 99.5% dos indianos (ver mapa em baixo) vivem com menos de US-30$ por dia, estamos a dizer que um indiano que ganhe por mês US-900$ tem o poder de compra equivalente ao que teria se vivesse nos Estados Unidos da América com esse montante mensal[1].

Portanto, imagine o que seria viver na América com US-30$ por dia.

O gráfico em baixo impressiona porque é assim que vive a grande maioria dos humanos atualmente.

Atualmente, cerca de 50% da população mundial vive em extrema pobreza (isso significa que vive com menos de 10$ por dia), e perto de 70% da população mundial é pobre.

Ser pobre significa, que as férias são passadas em casa (se é que se pode chamar de férias), que raramente (ou nunca) se vai almoçar ou jantar fora, que a casa tem fracas condições de isolamento térmico e acústico, que muitas das roupas foram oferecidas, que não se tem carro (nem para passear com a família ao fim-se-semana), que não se pode ter grande cuidado com a saúde dentária (porque dentífrico é um luxo e o seguro de saúde uma miragem), e que muitas vezes, o dinheiro só chega para comprar “junk food[2]” ou arroz, entre muitas outras coisas, pouco dignificantes da condição humana.

Se isto é ser pobre, imagine o que é ser extremamente pobre!

Mesmo ignorando que a grande maioria dos humanos terá de enfrentar décadas e décadas de trabalho repetitivo e desinteressante, muitas vezes desconsiderados por chefias prepotentes, com muito poucas perspetivas de ver as suas vidas melhorarem, fica fácil de perceber o ponto de vista de quem levanta a questão: Terá valido a pena a mudança para a vida sedentária proporcionada pela agricultura”?

Na altura, eramos muito menos e havia muito mais disponibilidade de alimentos no mundo selvagem (entenda-se animais para caçar e plantas e frutos para recolher).

O caçador-coletor era um ser livre, com tempo para si e para a sua família (que numa perspetiva mais abrangente, era todo o seu bando).

Não menos importante, desconhecia o que era viver num mundo extremamente desigual, em que uns exploram outros.

Como dizia alguém muito a propósito: o capitalismo é o sistema económico em que o ser-humano é explorado pelo ser-humano; e o comunismo, é exatamente o oposto disso.

Sim, é verdade que tecnologicamente evoluímos muito. Temos carros que estacionam sozinhos, GPS, Internet, telemóveis, frigoríficos, televisão, equipamentos para aquecer (ou arrefecer) a temperatura, eletricidade, medicamentos, hospitais, etc.

Mas infelizmente, mais de um quarto da população mundial continua sem ter água potável em casa, e mais do dobro não tem acesso a saneamento seguro.

A vida nos países mais ricos e desenvolvidos está longe de representar a vida no planeta; mesmo nesses países, alguma coisa não deve estar assim tão bem, se tantas pessoas acabam a recorrer às mais variadas drogas, álcool, tabaco, ansiolíticos, antidepressivos, seitas e grupos extremistas.

Sem falar que há pobreza até em países tão ricos como os EUA, e não me estou a referir apenas a pessoas que não querem, ou não conseguem trabalhar.

Apesar de tudo, é provável que a maioria da população mundial não queira voltar à vida do caçador-coletor.

Na verdade, tal não seria possível para a atual população.

Os recursos seriam claramente insuficientes, e não apenas devido à biodiversidade que, entretanto, destruímos (milhões de animais selvagens que matamos e outras tantas árvores que derrubámos), mas principalmente porque a natureza não produz vida como uma “fábrica de produção intensiva”, só nós é que o fazemos.

Mesmo que a população humana descesse para valores compatíveis, duvido que a maioria estivesse disposta a abdicar dos progressos alcançados. Apesar de tudo, a tecnologia trouxe confortos que são indiscutivelmente apreciados.

Respondendo à pergunta que dá o título a este capítulo, tenho de admitir que de um ponto de vista global, considerando a população mundial, a mudança foi para pior, embora, na minha ingénua forma de ver, esteja perfeitamente ao nosso alcance reverter essa situação.

Temos os meios e o conhecimento necessário para vivermos num mundo muito menos desigual e sem pobreza (se assim não for, é porque quem não quer, consegue impor a sua vontade).



[2] Alimentos com alto teor calórico, mas com níveis reduzidos de nutrientes.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

 


6.          A agricultura.

Acredita-se que a agricultura (domesticação de plantas e animais) terá surgido ao longo do Crescente Fértil, muito provavelmente por se tratar de uma zona rica em biodiversidade e boa para práticas agrícolas.

Admite-se que este processo tenha tido uma evolução gradual: grupos de caçadores-coletores que por aqui passavam (e que provavelmente permaneciam durante um certo período de tempo) terão percebido que certas plantas davam-se muito bem por estas terras.

Podem inclusive ter reparado que em determinados locais, fruto das suas atividades, as plantas voltavam a germinar (sementes que sem querer, ao transportar, deixavam cair, e que ao pisar, as enterravam).

Portanto, julgo que é legítimo afirmar que fruto do acaso e de alguma curiosidade, caçadoras-coletores tenham descoberto plantas e animais, disponíveis no local, que acabaram por conseguir domesticar.

Com o decorrer do tempo, foram ficando por períodos cada vez mais longos, até se concretizar a troca de uma vida nómada para uma vida sedentária.

A agricultura, este novo modo de vida, permitia alimentar uma população muito maior do que com a caça e a recoleção.

Crê-se que estas primeiras comunidades que se estabeleceram no Crescente-Fértil, caçavam, apascentavam cabras e gazelas e colhiam trigo selvagem (eram utilizadas mós para moer os cereais e obter farinha).

No meio científico é consensual que diferentes populações em várias partes do Crescente Fértil chegaram a soluções semelhantes, na sua busca por “este” novo modo de vida.

A agricultura permitiu às comunidades aumentarem a produção de alimentos e sustentar um maior número de pessoas que não estavam diretamente ligadas ao trabalho da terra, nomeadamente artesãos especializados. Por outro lado, este facto estimulou as trocas entre comunidades.

Com o decorrer do tempo irão surgir as primeiras Cidade-Estado, bem como mudanças profundas na forma como passaríamos a viver, que acabaram por se refletir na saúde do planeta Terra e na sobrevivência da grande maioria das espécies que o habitam.

A agricultura (domesticação de plantas e animais), com cerca de dez mil anos, veio mudar a forma como vivíamos desde há cerca de quatro milhões de anos.

Nesse curto período de tempo, o mundo tem sofrido profundas alterações e a um ritmo cada vez mais acelerado.

Apesar de ainda existirem fronteiras, culturas e línguas diferentes, o constante intercâmbio e contacto entre as diferentes comunidades, permite que uma infeção provocada por um vírus, possa evoluir e transformar-se numa pandemia que irá afetar toda a população humana.

Atualmente vivemos numa corrida contra o tempo, tentando evitar males maiores, resultantes do aquecimento global da temperatura do planeta, provocado pela atividade humana (utilização massiva de combustíveis fósseis).


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

 


5.          Caçadores-coletores.

Antropólogos descobriram evidências que fomos caçadores-coletores desde há pelo menos 2 milhões de anos e que só deixámos de ser há aproximadamente 10 mil anos quando se deu o advento da agricultura.

Crê-se que alimentação de hominídeos de períodos anteriores fosse predominantemente feita com base em sementes, frutos e carne de carcaças abandonadas por outros carnívoros.

O estilo de vida do caçador-coletor é determinado pela sua subsistência que depende da caça e da pesca de animais, bem como da procura por vegetação selvagem e outros nutrientes como o mel, para se alimentar. Até há aproximadamente dez mil anos atrás, todos os humanos eram caçadores-coletores.

Eram nómadas porque ao não garantirem os seus próprios alimentos (não dependiam da agricultura), assim que os recursos começassem a escassear tinham que partir para outro local. O seu estilo de vida requeria acesso a áreas de grande extensão para encontrar o alimento de que precisavam para sobreviver.

Geralmente os caçadores-coletores agrupavam-se em bando de 30 a 50 pessoas. Um número menor que 30 tornava o grupo mais fraco, enquanto um número maior aumentaria o esforço para garantir alimentos para todos, além de tornar mais complexa a mudança de todos para um novo local.

Estes bandos geralmente não tinham estruturas sociais hierarquizadas, apenas atividades diferenciadas por questões relacionadas com a idade, o sexo e a disponibilidade física. Ou seja, todos tinham os mesmos direitos e não havia uns com mais poder do que outros.

Por norma não conseguiam armazenar excedentes alimentares, o que impedia de suportar pessoas que se dedicassem exclusivamente a outras atividades, como por exemplo, burocratas, artífices ou militares/agentes de segurança.

Os caçadores-coletores viviam num ambiente social igualitário. Não sendo um igualitarismo total não deixa de impressionar por acontecer há tanto tempo atrás e porque a resistência em ser dominado foi um fator chave que impulsionou o surgimento evolutivo da consciência, da linguagem, do conceito de família e da organização social humana.

Nesse tempo vivia-se num ambiente de entreajuda e interdependência. Todos tinham um papel importante a desempenhar, e eram determinantes para o sucesso e coesão do grupo, de tal modo que se sentem pertencentes a uma única família.  

As atividades diárias de subsistência visavam fundamentalmente garantir alimento para o próprio dia ou no máximo para os dias seguintes. Isso significa que os caçadores coletores tinham mais tempo disponível para eles e para conviver com os outros elementos.

Face aos dias de hoje, as três grandes diferenças na forma como vivíamos são: ausência de acumulação de riqueza; ausência de desigualdades sociais e ausência de hierarquias.

Estas diferenças levaram alguns autores a questionar se não seríamos mais felizes antes do surgimento da agricultura.

O que leva à pergunta, se teria sido preferível continuarmos a viver dessa forma, abdicando dos vários progressos que nos permitem, entre outras coisas, tomar banho de água quente, ter luz à noite, comida conservada no frigorífico, a temperatura controlada, sem esquecer a facilidade com que nos movimentamos de um lado para outro e a capacidade de comunicar com alguém, onde quer que esteja.

Voltaremos a esta questão mais á frente.

A maioria absoluta de António Costa

 

Em 2015 o PSD ganha as eleições, mas não consegue formar governo (coligado à direita não obtém maioria absoluta).

É o PCP que propõe ao PS que se forme a “geringonça”.

António Costa aceita e é assinado um acordo parlamentar com o Bloco e PCP que dura de 2015 a 2019.

Nas eleições de 2019, o PS sobe, e passa a ser o partido mais votado, mas não é suficiente para governar sozinho.

Como dizem alguns analistas políticos, o povo português quis que a “geringonça” continuasse.

O PS não partilhava desse sentimento, e o acordo escrito, celebrado em 2015, não foi renovado em 2019. Nessa senda, o PS recusa vários acordos parlamentares com os seus parceiros da “geringonça”.

É a velha estratégia de quem quer o divórcio, mas não quer assumir a responsabilidade de o pedir, e opta por destabilizar a relação até que seja a outra parte a pedi-lo.

No dia seguinte às eleições, vários socialistas, em perfeita sintonia, acusavam o Bloco e o PCP de terem provocado uma crise política numa altura em que o país atravessa uma pandemia. Não só romperam os votos matrimoniais como o fizeram numa péssima altura.

Claro que os socialistas aproveitaram este cenário para passar a ideia de que depois desta crise, fica muito difícil voltar a negociar com os partidos à sua esquerda.

Mas o PS sabia que isto não seria suficiente para conseguir a maioria absoluta.

Era preciso usar o sentimento mais eficaz e mais usado em todo o mundo: o medo.

Para isso, era necessário apostar na bipolarização, ou seja, na possibilidade da direita chegar ao poder.

O Partido socialista é na verdade um partido social-democrata do centro político.

Não há assim tanta diferença ideológica entre o PSD de Rio e o PS(D) de Costa.

O mesmo já não se poderá dizer do PSD coligado com a iniciativa liberal, ou ainda menos, se a estes se juntasse o Chega.  

De modo um pouco inesperado, o PSD começa a subir nas sondagens e em pouco tempo está em empate técnico com o PS, mas sempre sem conseguir formar governo, sem se coligar com a IL e com o Chega.

Com as sondagens a dar (estranhamente) um empate técnico entre o PS e o PSD, começam também a surgir os fantasmas duma coligação à direita que pudesse tentar por fim ao salário mínimo nacional, e reduzir ainda mais o SNS e a escola pública.  

Perante este cenário, os eleitores que tradicionalmente votam no PS, ou nos partidos à sua esquerda, e depois de um divórcio ainda bem presente na memória dos portugueses, (com apenas um culpado), optaram pelo voto útil no partido socialista.

António Costa diz que vai conseguir que os portugueses mudem de ideia em relação às maiorias absolutas, querendo desde já passar a mensagem, que irá exercer um mandato, que deixará satisfeitos a maioria dos portugueses.

O tempo o dirá, mas palpita-me que não irá mudar muito as suas atuais políticas.

Talvez a conjuntura permita alguns aumentos (como por exemplo, no salário mínimo e médio) que darão a ilusão de melhoria de vida, mas não muito mais do que isso.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

 Covid-19 veio para ficar?

 Neste momento, tudo indica que sim!

Na Escandinávia, primeiro a Dinamarca e depois a Noruega, já foram dadas indicações para pôr termo às restrições.

Se se confirmar a tendência desta nova variante - Ómicron (ou de outra que, entretanto, surja), para ser menos agressiva (e letal), essas medidas serão adotadas, mais cedo ou mais tarde, por todos os países por este mundo fora.

Ou seja, podemos estar a assistir aos primeiros sinais do fim da pandemia, que dará alugar a uma endemia.

Mas há uma pergunta que paira no ar: Pode o vírus ficar mais agressivo?

Mutações nos genes podem ocorrer a todo o momento, de modo aleatório e com efeitos mais ou menos impactantes na sua agressividade e capacidade de transmissão.

Portanto, é possível que daí resulte um agente infecioso mais brando, ou mais agressivo.

Mas só uma destas opções tende a representar uma vantagem evolutiva. Porquê?

Porque, de acordo com Rafael Resque, doutor em genética e biologia molecular e professor da Universidade Federal do Amapá, “Em geral, os vírus mais letais não conseguem se disseminar tanto porque matam seus hospedeiros antes de contaminar outras pessoas”[1].

Ou seja, a tendência é que o vírus fique mais amigável, pois dessa forma pode continuar a reproduzir-se, infetando e reinfectando-nos.

Confesso que ao início fiquei intrigado com a nossa incapacidade para o derrotar. Como já tinha escrito, estamos perante uma guerra entre o ser mais desenvolvido do mundo e o menos.

Mas reconheço que isso acontece porque paira um pouco no ar a ideia de que podemos tudo, que somos invencíveis e que não há nada que não consigamos fazer.

Creio que esse pensamento tem nos conduzido para maus caminhos, nomeadamente no que diz respeito aos outros seres vivos e ao planeta em geral.

Talvez esta pandemia nos faça refletir um pouco sobre isso… Ou será que não?

 

 



[1] Leia mais em: https://saude.abril.com.br/medicina/mutacoes-do-novo-coronavirus-podem-deixar-a-covid-19-mais-leve/

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022


 

4.          De macaco a sapiens.

Os homens modernos, da espécie Homo sapiens, não evoluíram dos macacos, mas compartilham de um ancestral comum com eles.

Foi descoberto em 2002 por uma equipa de paleoantropólogos espanhóis uma espécie de primata que terá vivido há cerca de 12 milhões de anos e que poderá ter sido o ancestral comum do homem e dos grandes símios (gorila, chimpanzé, bonobo e orangotango).

A linhagem humana remonta há pelo menos 4 milhões de anos atrás com a descoberta no norte do Quénia de fósseis do Australopitecos Anamensis.

No decorrer desse período, a evolução deu-se de forma relativamente lenta[1]:

- Australopithecus Afarensis: estima-se que terá vivido há 3.4 milhões de anos; encontrado na Etiópia, nos Camarões e na Tanzânia; talvez o maior achado tenha sido Lucy (esqueleto encontrado em 1974 na Etiópia); tinha dentes mais humanos do que as criaturas anteriores; a mandíbula começou a ter a forma parabólica humana e estabeleceu plenamente a locomoção bípede.

Australopithecus Africanus: entre 2 a 3 milhões de anos atrás, esta espécie foi encontrada na África do Sul. Similar ao A. Afarensis no tamanho do cérebro, a mandíbula tem uma forma totalmente humana.

Homo Habilis: viveu há 1.6 milhões de anos e seus fósseis foram descobertos em 1964 na Tanzânia (África Oriental). Possuía a habilidade de usar ferramentas.

Homo Ergaster: descoberto na África do Sul, sua idade é datada em torno de 1.5 milhões de anos. Acredita-se que poderá ter sido o primeiro a usar o fogo e utilizar instrumento de pedras.

Homo Georgicus: com aproximadamente a mesma idade que o Homo Ergaster; foi descoberto em Dminisi, na Geórgia em 2002; media cerca de 1.5m e é considerado importante devido à sua descoberta ocorrer próximo das fronteiras da Ásia (mostrando processo de migração).

Homo Floresiensis: encontrados na Ilha de Flores (Indonésia), possui 1 milhão de anos. Sua marca principal era seu tamanho reduzido, que já na fase adulta chegava a medir apenas um metro (daí terem recebido a alcunha de "Hobbits").

Homo Erectus: foram encontrados fósseis no Quénia, com aproximadamente 1 milhão de anos; possui um cérebro duas vezes maior do que o de um chimpanzé. Foi a partir desta espécie que se deu início ao convívio social (juntavam-se em grupos para sobreviver).

Homo Heidelbergensis: com traços humanos bem claros, viveu há cerca de 500 mil anos atrás, sendo classificado como o ancestral comum mais recente entre H. Sapiens e o H. Neandertal; uma das suas principais características é o cultivo da fé (vários cemitérios foram encontrados, demonstrando que possuíam alguma crença religiosa); outro de seus feitos foi a capacidade de construir abrigos grandes para sua proteção; acredita-se que começou a espalhar-se por outros lugares, pois parte deles migrou para Europa (O seu nome nasce do local original de descoberta de seus primeiros fósseis, uma propriedade rural próxima de Heidelberg, Alemanha).

Homo Neanderthalensis: com cerca de 300 mil anos, viveu na Europa; sabe-se que coabitou com o sapiens; não há certezas sobre a sua extinção, embora uma das teorias aponte para nós.

Homo Sapiens: chegamos ao ponto em que estamos; com cerca de 300 mil anos e uma enorme capacidade de adaptação, utilizar ferramentas e viver socialmente.

Homo Sapiens Sapiens: é, na verdade, uma subespécie que se refere às formas mais modernas de Homo sapiens e que terão aparecido pela primeira vez há cerca de 120 000 anos; o aumento do volume craniano durante o processo evolutivo é notável, tendo crescido dos 450 cm3 (australopitecos) até os 1350 cm3 (Homo sapiens moderno), que lhe proporciona uma capacidade de raciocínio aumentada, linguagem complexa e a resolução de problemas difíceis (pensamento abstrato).



[1] https://www.hipercultura.com/conheca-as-fases-da-evolucao-do-homem/

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

 

 

3.           Reprodução sexuada.

A comunidade científica ainda está a tentar perceber como se deu exatamente a evolução da reprodução assexuada para a reprodução sexuada.

Considera-se uma evolução porque embora tenha ocorrido perda de eficácia, esta foi compensada por ganhos de eficiência, devido à maior variabilidade genética que se conseguiu.

Duas hipóteses se destacam sobre a origem do sexo:

- Originou-se do fenómeno de mistura entre o genoma de uma bactéria e de um vírus;

- Foi uma evolução do processo de trocas de material genético entre bactérias.

Acredita-se de que o sexo surgiu devido à necessidade de microrganismos (por ex. bactérias) de reparar danos (perdas ou ganhos indesejáveis de informação genética) no seu material genético.

O surgimento do sexo pode estar relacionado com a reparação do material genético, quer seja por meio da incorporação de DNA existente fora das células, quer da transferência de material genético que ocorreu entre microrganismos (bactérias, por exemplo).

O sexo “primitivo” pode ter começado por ser uma função reparadora, responsável exclusivamente por corrigir erros existentes no material genético.

Consequentemente, a evolução do sistema de enzimas que reparam os “erros” que surgem quando da transmissão da informação genética, esteve na origem dos mecanismos que promovem a troca de material genético entre indivíduos.

Em uma etapa posterior do processo evolutivo, com aparecimento dos seres eucariotas (com núcleo) e gonocorismos (com sexos separados - macho e fêmea), a reprodução sexuada envolve recombinação genética através da fusão dos gâmetas e do emparelhamento de cromossomos homólogos para certas espécies e também pela reunião de cromossomos sexuais (X e Y).

Na região ártica do Canadá foram encontrados fósseis que nos contam da primeira reprodução sexual há mil e duzentos milhões de anos (provavelmente o ancestral comum no que diz respeito à reprodução sexual).

Trata-se de um organismo multicelular (uma alga marinha) que se reproduzia sexualmente.

O ambiente hostil e em constante mudança em que viveu pode ter estado na origem da evolução para a reprodução sexuada.

*-*

Breve resumo destes primeiros três capítulos:

Dá-se uma explosão há treze mil e oitocentos milhões de anos, o Universo começa a expandir-se e nove mil e duzentos milhões de anos depois forma-se a Terra (há 4.6 mil milhões de anos).

Oitocentos mil anos depois (há 3.8 mil milhões de anos), combinam-se alguns elementos químicos (podiam ter sido estes: hidrogénio, metano, oxigénio, carbono e amónia) e formam-se aminoácidos[1] que estão na base das proteínas que são macromoléculas biológicas constituídas por uma ou mais cadeias de aminoácidos.

As proteínas estão presentes em todos os seres vivos e participam em praticamente todos os processos celulares, desempenhando um vasto conjunto de funções no organismo, como a replicação do ADN, a resposta a estímulos e o transporte de moléculas.

Note-se que podemos definir elementos químicos como sendo o conjunto de átomos com mesmo número atômico, ou seja, com a mesma quantidade de protões no núcleo.

Átomo é uma unidade básica de matéria que consiste num núcleo central de carga elétrica positiva envolto por uma nuvem de eletrões de carga negativa.

O núcleo atómico é composto por protões e neutrões. Os eletrões de um átomo estão ligados ao núcleo por força eletromagnética

Creio que é legítimo afirmar que a enorme complexidade que é a vida forma-se através da combinação de átomos.

Nós somos formados por átomos, que formam moléculas, que formam células, que formam tecidos, que formam ossos, que formam órgãos, etc.

Depois de se formar, a vida vai se mantendo através da reprodução assexuada (um dá origem a outro igual) e a diversidade apenas é conseguida através das mutações genéticas.

Dois mil e seiscentos milhões de anos depois (há 1.2 mil milhões de anos) passa a haver uma nova fonte de diversidade genética com o surgimento da reprodução sexuada.

A vida multicelular vai evoluindo e adaptando-se ao meio envolvente.

No caso de seres complexos, a reprodução sexuada só se dá quando é atingida a maturidade sexual, o que significa que tiveram de sobreviver (adaptando-se) até lá chegarem.

Por outro lado, em muitas espécies, permitiu a divisão de tarefas: por exemplo, enquanto um dos elementos do casal toma conta da cria, o outro procura alimento.

Da especialização surge mais uma fonte de variabilidade genética que será transmitida aos descendentes: “Herdei esta habilidade da minha mãe e aquela do meu pai”.

Mais ou menos novecentos mil anos depois (Qualquer coisa como trezentos mil anos antes de Cristo) surge o Homo Sapiens.



[1] Com base na experiência Henry Miller-Urey

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

 Democracia multipartidária.

A nossa democracia, ao contrário, por exemplo, da dos Estados Unidos da América, é constituída por vários partidos políticos (e não apena por dois).

Julgo que todos concordarão, que os eleitores votam em determinado partido porque se reveem no programa eleitoral, e nos ideais políticos desse partido.

Pelo menos é suposto ser assim, para uma significativa percentagem de cidadão votantes.

Nesse sentido, parece legitimo e até responsável, que os deputados eleitos, e os respetivos partidos políticos, respeitem o programa que os elegeu.

No meu entender, não faz nenhum sentido que os votos em determinado partido, sejam posteriormente entregues a outro partido, de mão beijada.

No entanto, alguns políticos parecem querer fazer-nos crer que deveria ser assim.

Se não nos deres o teu voto, ainda te vais arrepender, porque estás a contribuir para que seja outro partido, ainda mais afastado dos teus ideais, a assumir a governação do país.

Em teoria têm alguma razão. Mas é mais ou menos como se alguém lhe perguntasse se quer levar uma palmada ou prefere uma galheta. Podemos concordar que a palmada é melhor suportável, mas em todo o caso, temos sempre o direito de não querer, nem uma nem outra, e de lutar por isso.

Ao que nos contrapõem com, não temos o mundo que queremos, mas o mundo possível.

Mais uma vez é verdade!

Mas, deixar de acreditar é deixar de ter esperança num mundo em que acreditamos.

Ao longo da história, muitas pessoas ficaram pior do que estavam, porque lutaram por uma vida melhor.

O racismo e a diferença de género, não tinham tido os progressos que tiveram, se ninguém tivesse lutado por direitos diferentes.

Claro que os partidos podem, e em certas circunstâncias, devem negociar, mas como a própria palavra indica, isso implica um compromisso, que só pode ser alcançado com cedências de parte a parte.

Nenhum partido deve entregar os votos dos seus eleitores, apenas porque é um mal menor. Isso também podem os eleitores fazer, votando diretamente no partido maior.

Se queremos viver numa democracia evoluída e multipartidária, todos os partidos devem respeitar as escolhas dos eleitores. Caso contrário, será um sistema bipartidário em que governa um, ou governa outro.

É curioso, porque recentemente ouvi um ex-ministro do governo de Passos Coelho, Poiares Maduro, sugerir isso mesmo.

A solução era simples e engenhosa: O PS viabilizava um governo do PSD se este fosse o partido mais votado; e o PSD viabilizava um governo do PS, caso fosse o PS, o partido mais votado.

Apesar de não ser uma solução que me agradasse, não posso deixar de dizer que fiquei a pensar. Qual será a razão para ter tido tão pouca recetividade… Nem sequer foi discutida (pelo menos que saiba).

Deixo aqui quatro hipotéticas respostas (quem sabe outras possam surgir).

- Um dos partidos grandes (ou ambos) acredita que poderá chegar mais vezes ao poder como as coisas estão.

- Um dos partidos grandes (ou ambos) receia que dessa forma estivesse a contribuir para o crescimento do seu adversário.

- Retirando de cena vários atores (outros partidos), ficaria muito mais limitada a atribuição de responsabilidades, e, por conseguinte, a desresponsabilização pelos objetivos não alcançados.

- Seria inequivocamente uma jogada política que denotaria pouco espírito democrático. Quem sabe não pudesse levar os eleitores a penalizar os grandes partidos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

 


2.          Tentativa e erro!

Julgo que posso afirmar que este é o único algoritmo que a natureza conhece. Utilizado “infilhões[1]” de vezes desde que a vida se formou e assim deverá continuar a acontecer.

O mundo está em constante alteração. Nada será eternamente como sempre foi. Nem o próprio universo é imutável (tanto quanto se sabe).

Obviamente, não podemos ignorar que a dimensão e frequência das alterações (também, mas não só) dependem da escala de espaço e tempo que estivermos a considerar.

Alterações estruturais no planeta Terra dão-se a um ritmo muito inferior às que ocorrem em uma noz (apenas para dar um exemplo extremo).

A evolução depende da adaptação a um meio envolvente em constante mudança (mesmo que os ritmos difiram).

Inicialmente, quando a vida começou no planeta Terra (há três mil e setecentos milhões de anos) a reprodução era assexuada (um ser dava origem a outro). O processo mais comum da reprodução assexuada consistia na divisão em dois.

Este tipo de reprodução relativamente simples, mais rápida e eficaz do que a reprodução sexuada (na qual dois dão origem a um) gera indivíduos idênticos àqueles que os originaram, não promovendo tanta variabilidade genética.

Imagine que uma população de organismos é atacada por um vírus. A probabilidade de ser extinta é tanto maior quanto menor for a variabilidade genética dessa mesma população.

No entanto, devido às mutações, a variabilidade genética sempre existiu, mesmo quando só havia este tipo de reprodução (assexuada).

A variação/mutação genética ocorre em todos os organismos vivos (incluindo vírus) e é a principal causa da diversidade biológica da espécie.

Ocorrendo uma mutação, caso haja adaptação ao meio, pode tornar-se a característica dominante.

Se a nova versão for mais vantajosa, substituirá gradualmente a anterior. Caso funcione melhor nalgumas circunstâncias, mas pior noutras, poderá ser encontrado um equilíbrio com a versão anterior, de tal modo que uma parte da população tenha a primeira e a restante, a segunda. Nesse caso, esse gene teria duas variantes diferentes, o que acontece com uma grande percentagem de genes.

O sucesso, reflete-se no número de descendentes que vão herdar essa nova característica. Torna-se predominante na medida do êxito da sua transmissibilidade através da reprodução.

Para se reconhecer uma mutação deve-se comparar a variação genética com um padrão considerado normal. O genoma referência (aquele que é considerado padrão) são as sequências mais comuns, observadas em determinada população.

Ao passarmos para a reprodução sexuada houve ganhos de eficiência por se aumentar as fontes de variabilidade genética (deixa de ser apenas a mutação)

Mesmo que a reprodução se repita, os descendentes serão sempre diferentes, porque a carga genética dos gâmetas (óvulo e espermatozoide) é sempre única.

A exceção ocorre com gémeos idênticos porque nesse caso os gâmetas são os mesmos (o mesmo espermatozoide e o mesmo óvulo originam mais do que um descendente).

Já as mutações genéticas ocorrem durante o processo de interpretação do código genético. Se houver uma falha na leitura que provoque uma alteração na sequência de bases na molécula de DNA constituinte do gene, isso pode levar à alteração de uma determinada característica do organismo vivo.

A partir desse momento, entra em jogo a seleção natural. Se estivermos perante uma bem-sucedida adaptação ao meio envolvente, caso haja reprodução, a alteração genética passa para a futura geração, e pode vir a tornar-se na característica predominante.

No Caso do vírus Covid-19 também já assistimos a várias mutações. As quatro variantes classificadas pela OMS como de preocupação - Alfa (Reino Unido), Beta (África do Sul), Gama (Brasil) e Delta (Índia) - estão presentes na União Europeia e todas apresentam transmissão comunitária. Entretanto surgiu a Ómicron, com muito mais mutações que as anteriores, e que já está a caminho de se tornar dominante em todo o mundo.

Chama-se a esse processo de experimentar se uma determinada mudança (mutação genética) vai ou não se adaptar ao meio ambiente envolvente, de tentativa e erro.

Tentativa porque não houve planeamento. Não foi “vamos experimentar fazer aqui uma alteração para ver o que isto vai dar”. Muito menos “vamos experimentar fazer aqui uma alteração para ver se dá o que estamos a pensar”.

Foi uma falha na interpretação do código genético que causou uma alteração que quando estiver no seu meio ambiente pode (ou não) adaptar-se. Se tiver sucesso (na adaptação) pode tornar-se (ou não) na característica dominante.

Erro porque na grande maioria das vezes tal não acontece (a mutação não vinga). São muito mais os casos em que não resulta do que os êxitos.

É sem dúvida impressionante pensar que a vida neste planeta começou há três mil e setecentos milhões de anos através da combinação de elementos químicos que em última análise tiveram origem (tal como tudo) há sensivelmente treze mil e oitocentos milhões de anos, com a explosão do Big Bang[2].

Cada átomo de oxigênio que inspiramos, assim como cada átomo de cálcio que está nos nossos ossos ou de ferro e de carbono na nossa musculatura, tiveram uma origem muito específica: os elementos químicos indispensáveis para manter a nossa estrutura física, estão intimamente ligados com a origem do universo (e principalmente com as estrelas).

O surgimento de elementos químicos envolveu processos de fusão e fissão nuclear. Ou seja, processos em que átomos podem ser fundidos (fusão) ou divididos (fissão). De um modo geral tais eventos são conhecidos como nucleossíntese.

O primeiro processo de nucleossíntese natural foi o Big Bang, com uma produção massiva de elementos (e seus isótopos) químicos que estão ali[3] no início da tabela periódica – hidrogênio e hélio.

Seguindo essa tabela periódica, os três elementos seguintes foram o lítio, berílio e boro em processos de fragmentação de elementos mais pesados pela ação de raios cósmicos.

Elementos a partir do carbono podem ser formados em processos que ocorrem em estrelas. Alguns elementos podem ser formados em estrelas não muito maiores do que o nosso Sol, enquanto outros elementos, com mais protões e neutrões, precisam de condições mais drásticas, encontradas em estrelas mais massivas.

Outro processo foi a explosão de Supernovas que possuem massas maiores do que dez vezes o nosso Sol, com a possibilidade de dar vazão a vários processos nucleares de alta energia.

O Sol já é uma estrela de terceira geração, e graças a isso a composição química do sistema solar é rica o suficiente para formar a vida como a conhecemos.

A vida formou-se (provavelmente) após muitas tentativas, e de certo modo consegue manter-se porque desenvolve a capacidade de ir registando todos os processos já alcançados para não ter que estar sempre a começar do zero.

Para se manter precisa de se reproduzir e para evoluir tem que se adaptar sempre que necessário.

Foi assim, com este único algoritmo e com muitos milhões de anos que chegámos até onde estamos.

No entanto, já podemos dizer que a nossa presença veio trazer instabilidade a todo este processo, independentemente de todas as tentativas e erros que nunca cessaram de acontecer com todos os seres vivos (inclui vírus).

A ação humana tem alterado drasticamente o funcionamento e os fluxos naturais do planeta ao promover intensas mudanças globais, de tal modo que diversos especialistas afirmam que entramos em um novo período geológico, o Antropoceno.

O ser humano já é capaz de desenvolver algoritmos muito mais complexos que a natureza, porque não se baseiam apenas numa tentativa ao acaso, procuram eliminar hipóteses ou até mesmo acertar numa solução. 

Claro que em termos de tempo, a natureza leva um avanço descomunal que se reflete no número de tentativas já realizadas (isto sem referir que a natureza está constantemente, em todo o lado, a tentar). Talvez o desenvolvimento do computador quântico nos ajude a encurtar um pouco essa desvantagem. Mas acima de tudo, a nossa vantagem poderá estar na capacidade de desenvolver algoritmos complexos que nos ajudem a encontrar respostas.



[1] Expressão para dizer que foram tantas as vezes que se perdeu a conta.

[2] http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142006000300022

[3] https://www.tabelaperiodica.org/como-surgiram-os-elementos-quimicos/